APNDICE

Novos caminhos da psicologia

1. OS PRIMRDIOS DA PSICANALISE 

COMO todas as cincias, a psicologia tambm teve sua poca 
escolstica, que perdura em parte at nossos dias. Pode-se objetar a este tipo de psicologia o fato de decidir ex-
cathedra como a psique deve constituir-se e quais as qualidades que lhe cabem neste mundo e no outro. O 
esprito da moderna cincia natural acabou com tais fantasias, estabelecendo em seu lugar um mtodo emprico 
exato. Da surgiu a psicologia experimental hodierna, ou psicofisiologia como a chamam os franceses. O 
pai deste movimento foi Fechner, esprito contestador que, com sua Psychophysik , ousou introduzir o ponto de 
vista fsico na concepo dos fenmenos psquicos. Esta idia e no o erro admirvel desta obra representou uma 
verdadeira fora fecundante. Contemporneo de Fechner e mais jovem do que ele, Wundt foi, por assim dizer, o 
aperfeioa. dor da obra do primeiro. Sua grande erudio, capacidade de trabalho e gnio no campo da 
investigao de novos mtodos experimentais criaram a tendncia dominante da psicologia moderna. 
H pouco tempo ainda a psicologia experimental era essencialmente acadmica. A primeira tentativa digna 
de nota no sentido de aproveitar, pelo menos alguns dos numerosos mtodos na prtica psicolgica, partiu dos 
psiquiatras da antiga escola de Heidelberg (Kraepelin, Aschaffenburg, e outros); os 
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mdicos dos processos mentais sentiram pela primeira vez, tal como se pode supor, a necessidade 
premente de um conhecimento exato dos fenmenos psquicos. Em segundo lugar, a Pdagogilc 
apareceu com suas prprias exigncias no campo da psicologia. Da surgiu recentemente uma 
pedagogia experimental, em cujo campo Meumann, na Alemanha e Binet, na Frana, prestaram 
uma contribuio importante. 
Para ajudar realmente seus pacientes, o mdico especialista em molstias nervosas precisa 
forosamente dispor de conhecimentos psicolgicos. Tudo que  designado pelo termo de estado 
nervoso: a histeria, etc., tem uma origem psquica e requer, portanto, logicamente, um tratamento 
psquico. gua fria, luz, ar, eletricidade, magnetismo, etc., tem um efeito transitrio e na maior parte 
dos casos so absolutamente inteis. Representam s vezes artifcios de m reputao, no sentido 
de sugestionar o paciente. A doena, no entanto, radica na psique e assim na mais alta e complexa 
das funes, que dificilmente podemos incluir no campo da medicina. Aqui o mdico deve ser 
tambm um psiclogo e isto significa que precisa ser conhecedor da psique humana. Ele no 
pode esquivar-se a esta necessidade. Assim pois ter de recorrer naturalmente  psicologia, uma 
vez que seus livros de psiquiatria nada lhe ensinam. A psicologia experimental hodierna est longe, 
porm, de poder comunicar-lhe uma viso articulada daquilo que constitui, praticamente, os 
processos mais importantes da psique, pois sua meta  outra. Ela procura isolar os processos mais 
simples e elementares, que ficam nos limites da fisiologia, a fim de estud-los separadamente.  
pouco amiga da infinita variedade e mobilidade da vida psquica individual e por isso seu 
conhecimento da realidade e dos detalhes essenciais dessa vida carece de conexo orgnica. 
Portanto, quem quiser conhecer a psique humana infelizmente pouco receber da psicologia 
experimental. O melhor a fazer seria [pendurar no cabide as cincias exatas], despir-se da beca 
professoral, despedir-se do gabinete de estudos e caminhar pelo mundo com um corao de homem: 
no horror das prises, nos asilos de alienados e hospitais, nas tabernas dos subrbios, nos bordis e 
casas de jogo, nos sales elegantes, na Bolsa de Valores, nos meetings socialistas, nas igrejas, nas 
seitas predicantes e extticas, no amor e no dio, em todas as formas de paixo vividas no prprio 
corpo, enfim, em todas essas experincias, ele encontraria uma carga mais rica de saber do que nos 
grossos compndios. 
Ento, como verdadeiro conhecedor da alma humana, tornar- se-ia um mdico apto para ajudar seus doentes. 
Poder-se-ia perdoar-lhe o pouco respeito pelas assim chamadas pedras angulares da psicologia experimental. 
Pois entre o que a cincia chama de psicologia e o que a prxis da vida diria espera da psicologia h um 
abismo profundo. 
Tal deficincia tornou-se o ponto de partida de uma nova psicologia. Em primeiro lugar devemos sua criao a 
Sigmund Freud, de Viena, o mdico genial e investigador das doenas nervosas funcionais. Pode-se designar a 
psicologia inaugurada por ele como uma psicologia analtica. Bleuler sugeriu o nome de psicologia 
profunda , a fim de indicar que a psicologia freudiana trata das regies profundas, ou do interior da psique que 
tambm se designa pelo nome de inconsciente. O prprio Freud chamava o mtodo de sua investigao de 
psicanlise.  este o nome pelo qual sua posio psicolgica  geralmente conhecida. 
Antes de entrar na exposio dos fatos propriamente ditos, queremos dizer algo sobre suas relaes com a 
cincia at ento reconhecida. Aqui deparamos com um espetculo curioso, que confirma a verdade desta 
observao de Anatole France: 
Les savants ne sont pas curieux. O aparecimento da primeira obra de vulto neste campo despertou apenas 
um fraco interesse, apesar de sua concepo fundamental e totalmente nova das neuroses. Alguns autores 
escreveram elogiosamente sobre ela, continuando na pgina seguinte a explicar os casos de histeria segundo a 
velha maneira. Agiram mais ou menos como algum que tendo louvado a idia ou o fato da terra ser esfrica, 
continuasse calmamente a represent-la como se fosse plana. Depois desta publicao Freud publicou um 
ensaio que passou quase completamente despercebido, embora contivesse, por exemplo, observaes de uma 
importncia inestimvel no campo da psiquiatria. Quando, em 1899, Freud escreveu a primeira verdadeira 
psicologia dos sonhos (reinara at ento uma obscuridade noturna nesse domnio), as pessoas comearam a 
rir. Mas quando em meados da ltima dcada ele comeou a trazer  luz a psicologia da sexualidade, puseram-
se a insult-lo, s vezes do modo mais obsceno e isto perdurou 
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at recentemente. O cuidado com que essas obras foram estudadas pode ser reconhecido na ingnua 
observao de um dos mais eminentes neurologistas de Paris, por ocasio do Congresso Internacional de 
1907, durante o qual ouvi com meus prprios ouvidos: Eu no li as obras de Freud (ele no conhecia a lngua 
alem). Mas quanto s suas teorias, acho que no passam de uma mauvaise plaisanterie. [Freud, o digno e 
velho mestre, disse-me certa vez: Para falar a verdade, s cheguei  clara conscincia da minha descoberta, 
quando se manifestaram por todos os lados as resistncias e a indignao; desde ento aprendi a julgar o 
valor da minha obra segundo o grau da resistncia oposta a ela. Houve uma enorme onda de indignao contra 
a teoria sexual, parecia que o melhor era escond-la. Os verdadeiros benfeitores da humanidade 
parecem ser os corruptores: a resistncia contra os ensinamentos falsos incita o homem  
verdade. Mas aquele que diz a verdade , na opinio geral, um ser nocivo que incita o 
homem ao erro. 
O leitor poder supor tranqilamente que se trata, nesta psicologia, de algo indito, mas que nada tem de 
racional, de uma sabedoria oculta ou sectria; pois quem poderia impedir todas as autoridades cientficas de 
recusarem as coisas a limine?) 
Olhemos no entanto mais de perto esta nova psicologia. 
J nos tempos de Charcot sabia-se que o sintoma neurtico era psicognico, isto , proveniente da psique. 
Sabia-se tambm, graas aos trabalhos da escola de Nancy, que todo sintoma histrico pode ser produzido 
exatamente do mesmo modo pela sugesto. Mas no se sabia como um sintoma histrico se origina na psique, 
uma vez que as conexes causais do psiquismo eram totalmente desconhecidas. No comeo do sculo XVIII, o 
Dr. Breuer, um velho clnico de Viena, fez uma descoberta, que se tornou o verdadeiro ponto de partida da 
nova psicologia. Tinha uma jovem paciente de inteligncia notvel, que sofria de histerismo. Entre outros, 
manifestavam-se os seguintes sintomas: paralisia espstica (rigidez) do brao direito, e de vez em quando 
ausncias ou estados crepusculares; ela perdera tambm o domnio da linguagem, isto , no conseguia mais 
expressar-se na lngua materna, mas somente falava o ingls (afasia sistemtica). Props-se naquela poca e 
ainda hoje so propostas teorias anatmicas para explicar esse 

distrbio, apesar de que o centro cortical correspondente  funo do brao apresente aqui um 
transtorno to discreto como o que se manifesta no centro correspondente de uma pessoa normal 
[quando esta d uma bofetada na outra). A sintomatologia da histeria  cheia de impossibilidades 
anatmicas. Uma senhora que perdera completamente a audio por causa de uma afeco 
histrica, costumava cantar freqentemente. Certa vez, enquanto cantava, seu mdico sentou-se 
disfaradamen ao piano e comeou a acompanh-la, tocando de leve; ao passar de uma estrofe para 
outra, ele mudou de repente a tonalidade e a paciente, sem perceber, continuou a cantar na nova 
tonalidade. Portanto, ela ouvia e no ouvia. As vrias formas de cegueira sistemtica apresentam 
fenmenos semelhantes. Um homem sofria de uma cegueira histrica total. No correr do tratamento 
recuperou a vista, a princpio s parcialmente e por um longo perodo de tempo; podia ver tudo, 
exceto as cabeas das pessoas. Via todos que o cercavam, mas sem as cabeas. Portanto, via e 
no via. Depois de um grande nmero de experincias dessa espcie concluiu-se, h muito, que s a 
conscincia dos doentes no v e no ouve; as funes sensorjajs, porm, nada apresentam de 
irregular. Tal fato contradiz diretamente o carter orgnico da perturbao que sempre afeta a 
funo, de um modo ou de outro. 
Depois desta digresso, voltemos ao caso de Breuer. No havia causas orgnicas que justificassem 
a perturbao, de modo que esta devia ser considerada como histrica, isto , psicognica. Breuer 
havia observado que, se durante os estados crepusculares da paciente (fossem eles espontneos ou 
induzidos), conseguisse faz-la narrar as reminiscncias e fantasias que a pressionavam, isto a 
aliviava durante algumas horas. Ele UUUzou sistematicamente esta observao no tratamento 
ulterior. A paciente inventou um nome que se aplicasse ao tratamento, chamando-o de talking 
cure e tambm, por brincadeira, de chimney-sweeping. 
Essa paciente adoecera ao tratar do pai, acometido de uma doena mortal. Naturalmente, suas 
fantasias se relacionavam de um modo geral com esse perodo de aflio. As reminiscncias desses 
dias afloravam em seus estados crepusculares com uma fidelidade fotogrfica; eram to vvidas, em 
seus menores detalhes, a ponto de ser difcil acreditar que a memria desperta fosse capaz de uma 
reproduo de tal modo Plgstica e exata. (D-se o nome de hipermnesia a essa intensi 114 
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ficao dos poderes da inemoria, que podem ocorrer facilmente em certos estados de conscincia). Emergem 
ento coisas singulares. Uma dentre as muitas narrativas  mais ou menos esta: 
Numa noite de viglia, angustiada,  cabeceira do doente que estava muito febril, ela se sentia tensa, 
esperando um cirurgio de Viena que devia chegar para a operao. Sua me sara do quarto por instantes e 
Ana (a paciente) sentou-se perto da cama do doente, o brao direito pendente por sobre o espaldar da cadeira. 
Ela mergulhou numa espcie de sono acordado e viu uma serpente negra sair da parede, aproximando-se do 
doente, como que para mord-lo (provavelmente havia serpentes no campo, atrs da casa, que j haviam 
assustado a jovem e forneciam agora o material da alucinao). Ela queria afugentar o rptil, mas estava como 
que paralisada: o brao direito que pendia no espaldar da cadeira parecia adormecido, anestesiado, partico 
e como olhasse os dedos, ela os viu transformados em pequenas serpentes com caveirinhas [unhas]. 
Provavelmente ela esforou-se por afugentar a serpente com a mo direita paralisada; assim o sentimento de 
anestesia e paralisia ficou associado  alucinao com a serpente. Quando, afinal, esta desapareceu, a jovem 
quis orar em meio  angstia, mas no conseguiu pronunciar uma s palavra. Lembrou-se finalmente de um 
versinho infantil, em ingls, e foi assim que continuou a pensar e a orar nesta lngua. 
Foi esta a cena que motivou a paralisia e a perturbao da linguagem e mediante a narrao da mesma cena a 
perturbao desapareceu. Desta forma o caso foi resolvido satisfatoriamente. 
Contento-me em citar aqui este nico exemplo. No livro j mencionado de Breuer e Freud encontramos 
numerosssimos exemplos desta espcie. Compreendemos facilmente que cenas desta natureza so muito 
fortes e impressionantes; por isso h uma tendncia a atribuir-lhes um significado causal no aparecimento dos 
sintomas. A concepo corrente da histeria, nessa poca, derivada na teoria inglesa do nervous shock, 
energicamente defendida por Charcot, era apropriada para explicar a descoberta de Breuer. Da originou-se a 
assim chamada teoria do trauma, a qual afirma que o sintoma histrico (e na medida em que os sintomas 
constituem a doena, a histeria em geral) deriva dos golpes psquicos (traumas), cuja marca perdura 
inconscientemente atravs dos anos. Freud, que comeou colaborando com Breuer, confirmou exaustivamente 
tal descoberta. Tomou-se claro que nenhum, dentre centenas de sintomas histricos, surgia por acaso, mas 
que decorria de acontecimentos psquicos. A nova concepo abriu um amplo campo para o trabalho emprico. 
Mas a mente investigadora de Freud 
no podia permanecer muito tempo neste nvel superficial, uma vez que problemas mais difceis e profundos 
comeavam a aparecer.  . bvio que esses momentos de extrema ansiedade, tais como a paciente de Breuer 
experimentou, podem deixar uma impresso duradoura. Mas como ela poderia escapar a tais experincias se j 
trazia em si a marca da doena? Poderia ter sido a tenso de cuidar do doente o fator decisivo? Se assim fosse, 
deveria haver um nmero muito maior de acontecimentos dessa espcie, pois so muitos, infelizmente, os 
casos exaustivos de tal cuidado e a sade nervosa da enfermeira nem sempre  excelente. A medicina deu uma 
tima resposta a esta questo: O x do problema  a predisposio. O indivduo  portador de uma 
predisposio. Mas o problema, para Freud, consistia em saber o que constitui tal predisposio. Esta 
pergunta conduz logicamente ao exame da histria anterior ao trauma psquico. um fato conhecido que cenas 
excitantes podem ter efeitos muito diferentes sobre as pessoas que delas participam. Sabe-se tambm que a 
viso de certas coisas  indiferente, ou mesmo agradavel para algumas, despertando em outras, s em pensar, 
o maior horror: rs, serpentes, ratos, gatos, etc. H casos de mulheres que assistem tranqffllamente operaes 
sangrentas, mas que tremem de medo ao contato de um gato. Conheo o caso de uma jovem senhora que 
sofria de uma histeria aguda, em conseqncia de um susto repentino.  meia-noite, depois de uma reunio, 
estava a caminho de sua casa em companhia de vrios conhecidos, quando um coche apareceu atrs deles, em 
disparada. Todos se desviaram mas ela, como que fascinada pelo terror, ficou no meio da rua e comeou a 
correr adiante dos cavalos. O cocheiro estalou o chicote, praguejou; foi intil, ela continuava a correr rua 
abaixo, at que esta desembocou numa ponte. L chegando, ela perdeu as foras e para no ficar sob as patas 
dos cavalos teria, em seu desespero, se atirado ao rio, se os transeuntes no a tivessem impedido. Pois bem, 
esta mesma senhora estivera no sangrento 22 de janeiro em So Petersburg, na mesma rua que foi limpa pelo 
fogo de artilharia. Em torno dela,  direita e  esquerda, caam pessoas mortas ou feridas; ela porm com a maior 
calma e lucidez espreitava um porto pelo qual conseguiu escapar para outra rua. Este momento terrvel no lhe 
causou qualquer dificuldade. Ela sentia-se depois perfeitamente bem  melhor do que seria o normal. 
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Reaes semelhantes so freqentemente observadas. Disto decorre o fato de que a intensidade do trauma em 
si mesmo tem pouco significado patognico; tudo depende das circunstncias particulares que o cercam. E 
aqui temos a chave da predisposio. Devemos portanto indagar: quais so as circunstncias particulares da 
cena com o coche? O medo da paciente comeou com o rudo dos cavalos galopando; por um instante isto lhe 
pareceu como que o pressgio de algo terrvel  sua morte ou qualquer coisa de espantoso. Depois, perdeu 
completamente a conscincia do que estava fazendo. 
O efeito momentneo proveio evidentemente dos cavalos. A predisposio da paciente para reagir de um 
modo to estranho a este acontecimento banal residia no significado par. ticular de que os cavalos se 
revestiam para ela. Poder-se-ia conjeturar, por exemplo, que j lhe tivesse ocorrido algum acidente perigoso 
com cavalos. Era este realmente o caso. Aproximadamente aos sete anos de idade, durante um passeio com 
o cocheiro, os cavalos se espantaram de repente e, numa corrida desabalada, se aproximaram da margem 
abrupta de um rio que corria numa garganta profunda. O cocheiro pulou fora e lhe gritou para fazer o mesmo, 
mas ela se sentia imobilizada por um pavor mortal. Entretanto, no momento exato em que coche e cavalos se 
precipitavam no fundo, conseguiu saltar. No h necessidade de provas para que se compreenda a impresso 
marcante causada por um fato desta espcie. Ele no esclarece, no entanto, por que mais tarde um sinal 
aparentemente to inofensivo desencadeou uma reao de tal modo insensata. At agora s sabemos que o 
sintoma tardio teve um preldio na infncia. Mas o aspecto patolgico permanece obscuro. Para penetrar tal 
mistrio, precisamos recorrer a outras experincias. Tornou-se claro, com o enriquecimento da experincia que, 
em todos os casos analisados at agora, existe ao lado da experincia vital traumtica uma espcie particular de 
perturbao, que s pode ser descrita como uma perturbao no domnio do amor.  certo que o amor 
constitu um conceito algo elstico, que vai do cu ao inferno, abrangendo o bem e o mal, o alto e o baixo. 10 
Mediante tal descoberta, a concepo de Freud operou uma transformao notvel. Se mais ou menos sob o 
fascnio da teoria do trauma de Charcot ele buscara a origem da neurose nas experincias traumticas, 
deslocou agora o centro de gravidade do problema para um ponto inteiramente diverso, O nosso 
exemplo ilustra isto da melhor maneira possvel. Podemos compreender que os cavalos tivessem 
desempenhado um papel especial na vida da paciente, mas no compreendemos sua reao tardia, 
to exagerada e inoportuna. A peculiaridade patolgica desta histria no reside no fato de que ela 
se tenha apavorado com os cavalos. Lembremo-nos da descoberta emprica mencionada acima de 
que, ao lado dos acontecimentos vitais traumticos, h geralmente uma perturbao no domnio do 
amor; neste caso, devemos pesquisar o que no vai bem em relao a este aspecto. 
A paciente em questo conhecera um jovem e pensara em casar-se com ele; ela o amava e 
esperava ser feliz nessa unio. A princpio, nada mais claro. Entretanto, nenhum elemento deve ser 
omitido devido  insignificncia do aspecto superficial da questo. H caminhos indiretos para 
alcanar a meta, quando falha a via direta. Voltemos, portanto, ao momento particular em que a 
jovem senhora corria impensadamente  frente dos cavalos. Perguntamos acerca de seus 
companheiros e que espcie de reunio festiva fora aquela, da qual participara. Fora uma festa de 
despedida de sua melhor amiga que partia para longe, a fim de fazer uma estao de cura, por causa 
dos nervos abalados. Essa amiga  casada e, segundo dizem, feliz;  me de uma criana. Devemos, 
no entanto, desconfiar dessa informao, pois se ela fosse verdadeiramente feliz no teria razo 
alguma de ser nervosa, nem precisaria de uma cura. Perguntando acerca de outros pontos, fiquei 
sabendo que depois de ter sido socorrida pelos amigos, estes a levaram de volta  casa da amiga, 
por ser o refgio mais prximo. L chegando, exausta, foi recebida com hospitalidade. Neste ponto a 
paciente interrompeu a narrativa, ficou embaraada, confusa e procurou mudar de assunto. 
Evidentemente tratava-se de alguma reminiscncia desagradvel, que viera  tona. Depois da mais 
obstinada resistncia de sua parte, ficou bem claro que ocorrera naquela noite algo de muito singular: 
o amigo que a hospedava fez-lhe uma ardente declarao de amor, precipitando uma situao que 
devido a ausncia da dona da casa deve ter sido diffcjl e penosa. Parece que essa declarao de 
amor caiu Como um raio. Mas coisas deste tipo tm normalmente sua histria. Em algumas 
semanas desenterrei, pea por pea, uma longa histria de amor, at que finalmente disso resultou 
um quadro completo que tentarei esboar aqui: quando criana, a 
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paciente tinha sido um joozinho pueril, gostava s de brincadeiras selvagens de menino, zombava 
de seu prprio sexo e fugia a todas as ocupaes femininas. Depois da puberdade, quando o 
problema ertico se acentuou, ela comeou a evitar toda espcie de companhia e a odiar tudo aquilo 
que lembrasse, mesmo de longe, a disposio biolgica do ser humano, vivendo num mundo de 
fantasias, que nada tinha em comum com a realidade brutal. Assim, at os vinte e quatro anos, 
evitou todas as pequenas aventuras, esperanas e expectativas que geralmente motivam as 
mulheres dessa idade. (Estas, no que se refere a este aspecto, so muitas vezes insinceras consigo 
mesmas e com o mdico). Ela conheceu ento, mais de perto, dois homens que deveriam quebrar a 
cerca de arame farpado que pusera em tomo de si. A. era o marido de sua melhor amiga e B., seu 
amigo solteiro. Ela gostava de ambos. Logo, porm, pensou preferir muito mais B. Assim, logo se 
estabeleceu entre ambos uma relao ntima e se falava de um possvel noivado. Atravs de suas 
relaes com B. e atravs de sua amiga, ela ps-se de novo em contato com A., cuja presena a 
perturbava muitas vezes inexplicavelmente, irritando-a. Nessa ocasio a paciente foi a uma reunio 
muito concorrida e l encontrou seus amigos. Num certo momento, perdida em pensamentos, 
brincava distraidamente com o anel, que de repente escapou de seu dedo, caindo sob a mesa. Seus 
dois amigos procuraram-no e foi B. que o encontrou. Colocando-o no dedo da jovem, disse-lhe com 
um sorriso significativo: Voc sabe o que isto significa! Tomada por um sentimento estranho e 
irresistvel, ela arrancou o anel do dedo e o jogou pela janela aberta. Seguiu-se um momento penoso 
e pouco depois ela abandonou a reunio, extremamente abatida. Aps este incidente aconteceu o 
assim chamado acaso: ela passou as frias de vero numa estao de cura, onde sua amiga e A. 
tambm estavam. A amiga comeou a ficar visivelmente nervosa e muitas vezes no saa. As 
circunstncias eram favorveis para que a paciente e A. sassem juntos. Certa vez, passeavam num 
pequeno bote. Ela estava de tal modo alegre e agitada, que acabou caindo no mar. Como no 
soubesse nadar, A. conseguiu salv-la com dificuldade, puxando-a quase sem sentidos para dentro 
do bote. Ento ele a beijou. Com este episdio romntico, o vnculo foi consolidado. Para desculpar-
se diante de si mesma, ela continuou energicamente o noivado com B., tentando persuadir-se de que 
era ele a quem amava. claro que este jogo curioso 
no escapou ao olhar perspicaz da esposa ciumenta. Sua amiga adivinhou-lhe o segredo, atormentouse, 
ficando com os nervos abalados. Precisou, ento, partir para o estrangeiro a fim de curar-se. Na festa de 
despedida, o mau esprito soprou ao ouvido da nossa paciente: Esta noite ele est s. Deve acontecer alguma 
coisa para que voc v  casa dele. E foi isto o que aconteceu: devido ao seu estranho comportamento ela 
voltou a casa de A., tal como desejara. 
Depois deste esclarecimento provavelmente todos se inclinaro a afirmar que s um refinamento diablico 
inventaria um tal encadeamento de circunstncias, pondo-o a funcionar. No h dvida quanto ao refinamento, 
mas sua avaliao moral no  to segura; devo sublinhar que os motivos que levaram a esse dnouement 
dramtico no eram de forma alguma conscientes. Para a paciente, a histria parecia desenrolar-se por si 
mesma, sem que ela tivesse conscincia de qualquer motivo. Mas a histria prvia torna claro que tudo estava 
inconscientemente dirigido para este fim, enquanto o consciente lutava por efetivar o noivado com B. O 
impulso inconsciente na direo oposta foi mais forte. 
Voltamos aqui de novo  questo inicial,  pergunta acerca da provenincia da natureza patolgica (isto , 
peculiar, excessiva) da reao ao trauma.  base de uma concluso extrada de experincias conjeturamos que 
neste caso tambm deve haver, alm do trauma, uma perturbao no domnio ertico. Esta conjetura foi 
inteiramente confirmada e aprendemos que o trauma, causa manifesta da doena, no  mais do que uma 
ocasio para que se manifeste algo que de incio no  conscinte, a saber, um forte conflito ertico. Com isso, 
o trauma perde seu significado patognico e  substitudo por uma compreenso muito mais profunda e 
abarcante, que v o agente patognico como um conflito ertico. 
Muitas vezes me perguntam: Por que o conflito ertico  a Principal causa das neuroses? A isso s podemos 
responder: 
Ningum afirma que deve ser assim, mas que simplesmente  assim. Apesar de todos os protestos indignados 
em contrrio, o fato  que o amor , seus problemas e conflitos, se mostra de uma importancia fundamental na 
vida humana e, como revela uma pesquisa cuidadosa, tem um significado muito maior do que o indivduo 
imagina. 
O amor tomado aqui, naturalmente em se] sentido mais amplo, que nu mvolve apenas a Sexualjdade 
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A teoria do trauma foi deixada de lado por ser antiquada; a descoberta de que no  o trauma, mas sim um 
conflito ertico escondido, que est  raiz da neurose, fez com que o trauma perdesse completamente seu 
significado patognico. 

2. A TEORIA SEXUAL 

Com esta descoberta, a teoria do trauma foi resolvida e encerrada; em seu lugar, porm, ficou a pergunta acerca 
do conflito ertico, o qual, como o nosso exemplo mostra, contm uma multiplicidade de elementos anormais, 
no podendo ser comparado,  primeira vista, com um conflito ertico habitual. O que  peculiarmente 
espantoso e quase inacreditvel  que, na paciente, s a atitude era consciente, enquanto que a paixo real 
permanecia oculta a seus prprios olhos. Neste caso, por certo,  fora de dvida que a relao ertica real 
permanecia obscura, ao passo que a atitude dominava amplamente o campo da conscincia. Se formularmos 
teoricamente tais fatos, chegaremos ao seguinte princpio: h, numa neurose, duas tendncias em rigorosa 
oposio, sendo que uma delas, pelo menos,  inconsciente. 
[Contra esta formulao pode-se argumentar que ela parece talhada para este caso individual, no possuindo 
portanto uma validez geral. Talvez haja uma tendncia de aceitar-se tal objeo, porque ningum pode 
concordar facilmente com o fato de que o conflito ertico constitua algo de mais amplo. A tendncia ser de 
consider-lo como um tema que pertence ao romance, a algo de aleatrio. Mas isto no corresponde  verdade, 
uma vez que os dramas mais impressionantes, e os mais excntricos, no so desempenhados no teatro, mas 
no corao dos homens comuns, pelos quais passamos sem prestar ateno e que, no mximo, mostram ao 
mundo, atravs de um colapso nervoso, as batalhas que se desferem em seu intimo. Alm disso, o que  mais 
difcil para a compreenso dos leigos  que, em geral, os doentes no tm qualquer pressentimento da batalha 
que se trava em seu inconsciente. Se considerarmos, no entanto, o nmero de homens que nada sabem acerca 
de si mesmos, no devemos nos admirar de que tambm haja os que nada pressintam acerca de seus 
verdadeiros conflitos. Se 
o leitor estiver inclinado a admitir a possvel resistncia de conflitos patognicos, eventualmente 
oriundos do inconsciente, ento protestar contra o fato de que se trata de um conflito ertico. E se 
for propenso ao nervosismo, poder irritar-se contra este absurdo aparente; pois fomos acostumados 
pela educao recebida em casa e na escola a persignar-nos trs vezes diante de palavras tais como 
ertico e sexual. Conseqentemente pensamos que no h nada disso ou que, pelo menos, se 
trata de algo raro ou longnquo. E no entanto os conflitos neurticos da procedem, em primeiro 
lugar]. 
O processo da cultura consiste, como se sabe, numa subjugao progressiva do animal no homem.  
um processo de domesticao que no pode ser levado a cabo sem que haja revolta por parte da 
natureza animal, que tem sede de liberdade. De vez em quando ocorre como que um estado de furor 
na humanidade constrangida pela atuao da cultura: a Antiguidade experimentou-o nas ondas de 
orgias dionisacas que vinham do Oriente e que se tornaram um ingrediente essencial e 
caracterstico da cultura antiga. Esse esprito contribuiu apreciavelmente para o desenvolvimento do 
ideal estico do ascetismo, nas inmeras seitas e escolas filosficas do ltimo sculo antes de Cristo. 
Foi ele que produziu, a partir do caos politestico dessa poca, as religies gmeas do mitraismo e do 
cristianismo. Uma segunda onda de furor dionisaco varreu o Ocidente no Renascimento.  difcil 
julgar o esprito do tempo a que pertencemos. Mas se observarmos os caminhos da arte, do estilo e 
do gosto geral e tambm o que os homens lem e escrevem, que sociedades fundam, quais as 
questes que esto na ordem do dia e contra o que combatem os filisteus, ento encontraremos no 
longo catlogo de nossas questes sociais presentes, e no em ltimo lugar, a chamada questo 
sexual. Esta  discutida por homens e mulheres que debatem a moral sexual vigente e que 
procuram anular o peso da culpa moral acumulada sobre Eros pelos sculos passados.  impossfver 
negar simplesmente a existncia de tais esforos, ou condenlos como injustificveis; eles existem e 
tm por isso mesmo um motivo suficiente.  mais interessante e proveitoso investigar atentamente 
os fundamentos deste movimento contemporneo do que engrossar o coro das carpideiras da 
moralidade, que profetizam [num xtase histrico] a decadncia moral da humanidade. Os 
moralistas tm o privilgio de no confiar em Deus, Como se acreditassem que as esplndida rvore 
da humanidade 
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s pudesse prosperar graas ao cuidado de serem podadas, atadas e dispostas em fileiras, ignorando que o 
Pai-Sol e a Me- Terra permitem que ela cresa para a sua alegria, segundo leis mais profundas e sbias. 
As pessoas mais lcidas sabem que atualmente se prope uma questo sexual. O desenvolvimento rpido das 
cidades, com a especializao da mo-de-obra, acarretou uma extraordinria diviso de trabalho; a 
industrializao crescente da regio rural, o sentimento cada vez maior de insegurana, privam os homens de 
muitas oportunidades de descarregar suas energias afetivas. A atividade peridica e rtmica do campons lhe 
proporciona satisfaes inconscientes, por causa de seu contedo simblico; o operrio fabril e o empregado 
de escritrio no conhecem e jamais podero desfrutar de tais satisfaes; a vida mergulhada na natureza, os 
belos momentos em que o campons, como o senhor que faz frutificar a terra, mergulha o arado no solo e com 
um gesto de rei espalha as sementes para a futura colheita; o medo legtimo do poder destrutivo dos 
elementos, a alegria pela fecundidade de sua esposa, gerando filhos e filhas que tambm significam um 
acrscimo da fora de trabalho e um bem-estar maior, de tudo isto fomos privados, ns, homens da cidade, 
trabalhadores mecanizados. No comea a faltar-nos a mais natural e bela das satisfaes: 
a colheita de nossa prpria semeadura e a bno dos filhos, que olhamos com uma alegria simples? [Os 
casamentos onde no florescem todas as artes da alcova podem ser contados nos dedos. No representar 
isto uma primeira despedida das alegrias que a Me Natureza ofereceu a seus filhos primognitos?]. Onde 
poder prosperar a alegria? E os homens se esgueiram rumo ao traalho (observe-se os rostos dos homens no 
nibus s sete e trinta da manh. Um fabrica a sua rodinha, outro escreve coisas que no o interessam. No 
admira que quase todos pertenam a tantos clubes quantos so os dias da semana, ou que haja pequenas 
sociedades para mulheres, onde elas podem dedicar-se ao heri do momento; h tambm aquela vaga nostalgia 
que os homens afogam no restaurante Zum Frohsinn, com muito palavrrio e uns goles de cerveja). A estas 
fontes de descontentamento acrescenta-se uma dificuldade interior e mais grave. A natureza abasteceu os 
homens indefesos e desarmados com uma grande reserva de energia, a fim de torn-los capazes no s de 
suportar passivamente os perigos da existncia, mas tambm de venc-los. A Me-Natu rez 
equipou seu filho para enfrentar tremendas privaes (e estabeleceu o delicioso prmio para os vencedores, 
prmio ao qual Schopenhauer se refere ao afirmar que a felicidade no  mais do que a extino da infelicidade). 
Via de regra, somos protegidos eventualmente contra essas necessidades vitais imediatas que nos afligem e 
por isso somos tentados todos os dias; o animal humano sempre viceja quando no  premido pela dura 
necessidade. Seremos realmente atrevidos? Em que festas orgisticas gastamos o superavit de nossa fora 
vital? Nossas concepes morais no permitem uma tal escapatria. 
[Enumeramos as diversas fontes das quais mana a insatisfao que nos atinge: a renncia de gerar e dar  luz, 
tendo sido providos pela natureza de uma grande quantidade de energia; a monotonia do trabalho 
especializado, que exclui o interesse pelo seu contedo e finalmente a poupana de energia por causa da 
segurana de nossa vida contra a guerra, a anarquia, o roubo, as epidemias, a mortalidade de crianas e 
mulheres, tudo isto resulta numa soma de energias livres, que devem necessariamente ser desafogadas. De que 
modo, porm? So relativamente poucos os que, atravs de esportes arriscados, criam para si mesmos os 
perigos quase naturais da vida. A maioria  compelida a criar para si mesma um equivalente das dificuldades da 
existncia atravs do lcool, da caa ao dinheiro, da embriagus mrbida de cumprir o dever, do esgotamento 
pelo trabalho, a fim de escapar a um represamento ameaador da energia, que poderia forar uma sada 
insensata. Tudo isto faz com que se coloque hoje a questo sexual. A energia poderia ser liberada por este 
caminho como o foi, desde a Antiguidade, para fins de segurana e sustento. Nestas cirCunst.nc ias se 
reproduzem no s os coelhos, como tambm os homens, mediante a pilhria destes caprichos da natureza. 
Eles tm que sofrer tal pilhria, uma vez que por causa de Suas concepes moralistas se encurralaram numa 
gaiola estreita, cuja perigosa exiguidade no  sentida at que a necessidade amarga a torne ainda mais 
estreita. Para o homem da cidade o espao j se tomou muito restrito. A tentao o cerca, Seduzindo-o como 
um cften invisvel que sussurra os segredos dos preservativos que protegem ou evitam as conseqncias]. 
Mas por que deve naver restrio moral? Ser por alguma Coisa que ultrapassa a considerao religiosa de um 
Deus rancoroso? Deixando de lado o fato da descrena cada vez maior, LUXZ homem de f deveria perguntar a 
si mesmo, tranqila- 
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mente, se, no caso de ser Deus, puniria, uma diabrura [ertica] de Joozinho e Maria com a danao eterna. 
Tais ideais no so mais compatveis com nossa concepo decente de Deus. Nosso Deus  demasiado 
tolerante para fazer um estardalhao por isso. [Patifaria e hipocrisia so mil vezes mais graves]. Assim  que a 
moralidade sexual algo asctica e principalmente dissimulada de nosso tempo  desprovida de qualquer 
fundamento real. Ser que poderamos afirmar que estamos protegidos contra todas as diabruras por nossa 
sabedoria superior, ou pela viso da nulidade do comportamento humano? Infelizmente, estamos longe disso. 
[Pelo contrrio, a sugesto tradicional mantm-nos agrilhoados e a covardia e a irreflexo fazem o rebanho 
continuar o trote nessa vereda], O inconsciente do homem possui um faro apurado para o esprito do tempo; 
ele adivinha suas possibilidades e sente no ntimo a insegurana dos fundamentos da moral presente, que no 
 mais apoiada por uma convico religiosa viva. Aqui se origina grande parte dos conflitos ticos de nosso 
tempo. O impulso de liberdade colide com as barreiras frouxas da moralidade: 
os homens esto em tentao, eles querem e no querem. E porque no querem e no podem imaginar o que na 
realidade desejam, o conflito  principalmente inconsciente e da procede a neurose. Esta, como podemos ver,  
intimamente ligada ao problema de nosso tempo, representando verdadeiramente a tentativa malograda do 
indivduo resolver em si mesmo o problema geral. A neurose  um estado de desunio consigo mesmo. O 
motivo desta desunio, na maioria das pessoas, consiste no fato de que a conscincia deseja manter seu ideal 
moral, enquanto o inconsciente luta por um ideal imoral  no sentido convencional  que a conscincia 
constantemente tenta negar. Indivduos deste tipo pretendem ser mais decentes do que realmente so. O 
conflito, no entanto, pode ser o oposto: h pessoas aparentemente muito indecorosas, que no opem a menor 
restrio a si mesmas, sendo isto, no entanto, uma pose de perversidade, uma vez que abrigam no fundo o lado 
moral, que caiu no inconsciente. Analogamente h o caso do indivduo decente, que abriga no inconsciente o 
lado indecente (os extremos devem, por isso, ser evitados tanto quanto possvel, pois sempre despertam a 
suspeita de seu oposto). 

Esta discusso geral foi necessria para o esclarecimento do conceito de conflito ertico. [Este  o ponto 
nodal de toda concepo da neurose]. Podemos agora discutir, em primeiro lugar, a tcnica da psicanlise e, em 
segundo, o problema da terapia. [Esta ltima questo leva-nos ao exame de uma srie de particularidades e de 
uma casustica difcil, que ultrapassa os limites desta breve introduo. Contentemo-nos por ora com este olhar 
lanado sobre a tcnica da psicanlise]. 
A questo acerca desta tcnica prope-se do seguinte modo: 
de que maneira  possvel chegar ao inconsciente do paciente pelo caminho mais curto e que tambm seja o 
melhor? O mtodo inicial foi o hipnotismo. Interrogava-se o paciente em estado de concentrao hipntica, ou 
ento se estudava a produo espontnea de suas fantasias durante esse estado; tal mtodo ainda  
empregado ocasionalmente. Comparado, porm, com a tcnica atual  demasiado primitivo e portanto 
insatisfatrio. Um segundo mtodo foi criado na Clnica Psiquitrica de Zurique: o chamado mtodo de 
associao , cujo valor  principalmente terico-experimental. Ele proporciona uma compreenso extensa, mas 
superficial, do conflito inconsciente (complexo). O mtodo mais penetrante  o da anlise do sonho, 
descoberto por Freud. 16 
Pode-se dizer do sonho, que  a pedra rejeitada pelos construtores, que se tornou a pedra angular. O sonho, 
esse produto fugaz e modesto da nossa psique, desfruta, em nossa poca, de um profundo desprezo. 
Antigamente, era considerado como um sinal anunciador do destino, como um portador de pressgios, um 
mensageiro dos deuses, cujo carter podia ser consolador. Agora o encaramos como um mensageiro do 
inconsciente, que deve revelar-nos os segredos escondidos pela conscincia, o que ele realiza com 
surpreendente eficincia. Atravs da pesquisa analtica do sonho verificou-se que este ltimo, tal como se 
apresenta,  apenas a fachada que oculta o interior da casa. Entretanto, se observarmos determinadas regras 
tcnicas, perrflitindo que o sonhador fale sobre as particularidades de seu Sonho, logo suas idias se 
centraro num certo sentido, configurando determinados temas. Estes parecem ter um significado pessoal que 
no se presumira inicialmente atrs do sonho; mas, como mostra uma cuidadosa comparao, ele mantm 
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uma relao [simblica] extremamente delicada e minuciosa com a fachada do sonho. Este complexo particular 
de idias, no qual se unem todos os elos do sonho,  o conflito buscado, ou melhor, uma variao do mesmo 
condicionado pelas circunstncias. Os elementos penosos do conflito so assim de tal modo escondidos ou 
dissolvidos, que se pode falar de uma realizao de desejo; devemos porm acrescentar que os desejos 
realizados no sonho no parecem ser nossos; pelo contrrio, parecem justamente opor-se a eles. Assim, por 
exemplo, uma filha ama ternamente a me e sonha  com grande angstia  que esta morreu. Em tais sonhos no 
parece haver qualquer realizao de desejo; eles so inumerveis, representando uma pedra de tropeo  nossa 
crtica erudita, uma vez que no faculta [incredibile dictu] a distino entre o contedo latente do sonho e 
o declarado. Devemos precaver-nos contra este erro: o conflito armado no sonho  inconsciente, assim como o 
desejo de uma soluo. A sonhadora deseja efetivamente que sua me se afaste; na linguagem do 
inconsciente isto significa o desejo de sua morte. Sabemos ento que h no inconsciente um certo 
compartimento que contm tudo que se passa alm das reminiscncias e lembranas, inclusive todos os 
impulsos instintivos da infncia, que no encontraram aplicao na vida adulta, isto , uma srie de desejos 
egostas infantis. Pode-se dizer que a maioria dos elementos provenientes do inconsciente possui, em primeiro 
lugar, um carter infantil. Assim, por exemplo, este desejo particularmente ingnuo: Quando mame morrer 
voc vai casar comigo, no , papai? A expresso deste desejo infantil  um substitutivo (neste caso de um 
desejo recente de casar-se da sonhadora, desejo penoso cujos motivos ainda esto por ser descobertos). A 
idia do casamento, ou melhor, a seriedade da inteno correspondente a ela foi reprimida no inconsciente, 
como se costuma dizer, exprimindo-se depois de um modo necessariamente infantil, uma vez que o material 
disponvel do inconsciente consiste, em grande parte, de reminiscncias infantis. [As novas pesquisas da 
Escola de Zurique constataram que tais reminiscncias no so apenas infantis. Elas ultrapassam tambm o 
limites do indivduo como memrias da raa. 
No  este o lugar adequado para esclarecer atravs de muitos exemplos o domnio extraordinariamente 
Complicado da anlise do sonho; devemos contentar-nos, portanto, com os resultados da pesquisa: os 
sonhos so o substitutivo simblico dos desejos importantes para o indivduo, que no foram 
satis feitos durante o dia, sendo ento reprimidos. Em contraposio  atitude moral dominante 
esto os desejos insuficientemente reconhecidos, realizados simbolicamente no sonho e que, via de regra, so 
erticos. Por isso no  aconselhvel contar os sonhos para algum que deles tem um conhecimento 
adequado, pois sua simblica  muitas vezes transparente para os que conhecem suas regras. Os mais claros 
quanto a isso so os sonhos freqentes de medo que, em geral, simbolizam fortes desejos erticos]. 
O sonho  feito de detalhes aparentemente pueris, que despertam uma impresso de algo ridculo, ou ento  
de tal modo incompreensvel em sua superfcie, a ponto de deixar-nos desorientados. Por isso devemos sempre 
superar em ns mesmos uma certa resistncia antes de conseguirmos desatar seu enredo complicado, atravs 
de um trabalho paciente. Quando penetramos no verdadeiro sentido de um sonho, mergulhamos 
profundamente no segredo do sonhador e descobrimos com espanto que seu aparente absurdo  significativo 
ao mais alto grau e sua linguagem fala apenas das coisas extraordinariamente importantes e srias da alma. Tal 
descoberta faz-nos sentir mais respeito pela velha superstio de que os sonhos tm um significado 
desconhecido, at agora, pela corrnte racionalstica do nosso tempo. 
Como diz Freud, a anlise do sonho  a via rgia que leva ao inconsciente. Ela conduz-nos aos segredos 
mais profundos da personalidade, sendo portanto um instrumento inestimvel nas mos do mdico e educador 
da alma. Os opositores deste mtodo baseiam-se em argumentos que, em geral (deixando de lado as correntes 
subterrneas dos pressupostos pessoais), derivam principalmente da tendncia escolstica do pensamento 
erudito, ainda bastante forte em nossos dias. A anlise dos SOnhos descobre impiedosarnente a falsa moral e 
as pretenses hipcritas do homem, revelando-lhe o outro lado de seu carter sob uma luz crua; no admira, 
pois, que muitos se sintam apanhados de boca na botija. Lembro-me sempre, relativamente a isto, da admirvel 
esttua do prazer da Catedral de Basilia, exibindo seu doce sorriso arcaico, mas com o traseiro coberto 
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de sapos e serpentes. A anlise do sonho d volta s coisas, revelando o outro lado.  difcil contestar o valor 
tico desta correo da realidade. A operao  extremamente penosa, mas tambm  til, exigindo muito do 
mdico e do paciente. A psicanlise, enquanto tcnica teraputica, consiste principalmente em reunir inmeras 
anlises de sonhos. No decorrer do tratamento, os sonhos fazem emergir a imundcie do inconsciente, a fim de 
exp-la  fora curativa da luz diurna e deste modo muita coisa valiosa, que se acreditava perdida,  
recuperada. Trata-se de uma catarse especial, semelhante  arte da parteira da maiutica socrtica.  claro 
que, em tais circunstncias, a psicanlise parece uma tortura para muitos indivduos que assumem diante de si 
prprios uma atitude na qual acreditam com veemncia. Pois de acordo com o velho dito mstico D o que 
tens e ento recebers! eles so chamados a abandonar em primeiro lugar suas iluses mais ntimas e amadas, 
a fim de que algo superiormente profundo e belo possa ressurgir dentro deles, em toda a sua amplitude. S 
atravs do mistrio do auto-sacrifcio um homem pode encontrar-se novamente.  realmente uma velha 
sabedoria que vem  luz atravs do tratamento psicanaltico e  particularmente curioso o fato de que tal 
espcie de educao psquica se mostre necessria no pice de nossa cultura moderna. Esta forma pedaggica 
pode ser comparada  tcnica de Scrates sob vrios aspectos, se bem que a psicanlise penetre em 
profundidades bem maiores. 
Sempre encontramos nos doentes um conflito que se liga, num determinado ponto, aos grandes problemas da 
sociedade; quando a anlise chega a esse ponto, o conflito aparentemente individual revela-se um conflito 
universal de seu ambiente e de sua poca. A neurose, portanto,  uma tentativa individual e malograda de 
resolver um problema geral; mas este problema geral, esta questo no  um ens per se, existindo apenas no 
corao dos indivduos. [A questo que mobiliza os doentes  
 1 cant help it  a questo sexual ou mais exatamente o problema da moral sexual moderna. Sua 
exigncia crescente sobre a vida e a alegria vital, sobre o colorido da realidade, suporta os limites necessrios 
que a realidade lhe impe, mas no as bairas arbitrrias e mal fundadas da moral presente. Esta, das 
profundidades da escurido animal, estiola o esprito criador que ascende. Pois] o neurtico tem a alma de 
uma criana, que suporta com dificuldade as restries arbitrrias, 
cujo sentido ele no reconhece. Embora procure concordar com essa moral, acaba sucumbindo a 
um dilaceramento profundo, a um estado de desunio consigo mesmo. Por um lado, ele quer 
suprimir-se e por outro, libertar-se: a esta luta d-se o nome de neurose. Se tal conflito fosse 
claramente conscientizado, os sintomas neurticos no se formariam; estes aparecem quando no 
encaramos o outro lado da nossa natureza e a urgncia de seus problemas. Nestas circunstncias os 
sintomas se manifestam e ajudam a exprimir o lado no reconhecido da psique. O sintoma  pois 
uma expresso indireta de um desejo que no se reconhece; quando este se torna consciente, entra 
em conflito violento com nossas convices morais. Como j dissemos, se este lado sombrio da 
psique for subtrado da compreenso consciente, o doente no poder confrontar-se com ele, corrigi-
lo, conformar-se com ele, ou ento renunci-lo; pois na realidade ele no possui de forma alguma os 
impulsos inconscientes. Expulsos da hierarquia da psique consciente, eles se tornam complexos 
autnomos, que podem ser postos de novo sob o controle consciente, atravs da anlise do 
inconsciente. Isto no se d sem grandes resistncias. H muitos pacientes que se vangloriam, 
dizendo que o conflito ertico no existe para eles; afirmam que a questo sexual  absurda, pois 
no possuem qualquer sexualidade. No percebem que outras coisas de origem desconhecida lhes 
impedem o caminho: caprichos histricos, enredos que fazem em relao a si mesmos e a outros, um 
catarro estomacal de fundo nervoso, dores aqui e acol, irritabilidade sem motivo e todo um exrcito 
de sintomas nervosos. [Aqui est o engano, pois o grande conflito dos homens cultos de hoje passa 
relativamente despercebido s a poucos dentre os particularmente favorecidos pela sorte; a grande 
maioria toma necessariamente parte neste conflito geral]. 
A psicanlise j foi acusada de liberar no homem (felizmente) os instintos animais reprimidos, 
causando deste modo um dano incalculvel. Esta apreenso evidencia a pouca confiana que o 
homem deposita na eficcia dos princpios morais modernos. Pretende-se, aparentemente, que s a 
moral possa impedir o homem de entregar-se ao desregramento; no entanto, uma instncia 
reguladora muito mais atuante  a necessidade, que estabelece limites reais, muito mais persuasivos 
do que os preceitos morais. certo que a anlise libera os instintos animais, mas no, como alguns 
pretendem, no sentido de dar-lhes um curso desenfreado. A anlise tenta conduzir esses instintos 
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a uma aplicao superior, na medida em que isto  possv para a pessoa em questo e uma vez que haja uma 
exignci de (sublimao). Conseqentemente, em todas as circunstt elas h vantagem em ter plena posse da 
prpria personalidad Se assim no for suas partes reprimidas perturbaro outra etapas do caminho, e no em 
pontos sem importncia; pertw baro justamente os pontos em que se for mais sensitivo. T verme 
sempre ri o cerne. [Portanto em lugar de combater-s a si prprio,  melhor aprender a carregar o prprio fard 
no apenas tentando elaborar inutilmente as dificuldades ii ternas sob a forma de fantasias, mas colocando-as 
nas viv cias reais. Deste modo o indivduo evitar viver e consumir:s somente em lutas inteis]. Se os homens 
fossem educados n sentido de ver o lado sombrio de sua natureza, provavelment aprenderiam a compreender e 
a amar verdadeiramente os se semelhantes. Um pouco menos de hipocrisia e um pouco ma de tolerncia em 
relao a si mesmo s podem dar bons resu tados em relao ao prximo; pois o homem tem uma inclirs o 
ntida para transferir aos seus semelhantes a injustia e violncia que exerce sobre a sua prpria natureza. 
[[A ligao do conflito individual com o problema ger coletivo estende o mbito da psicanlise alm do crculo 
restrit de uma simples terapia mdica; a psicanlise proporciona a paciente uma sabedoria de vida baseada num 
conheciment emprico que lhe d, ao lado do conhecimento do seu prpri ser, as possibilidades de adaptar-se a 
esta ordem de coisa No podemos detalhar aqui em que consistem estas divers formas de conhecimento.  
difcil tambm, a partir da liter tura at agora apresentada, construir uma imagem adequar da anlise, uma vez 
que ainda no foi publicado nada de sul cientemente satisfatrio no tocante a uma tcnica de anli mais 
profunda. Neste domnio grandes problemas esto ain  espera de uma soluo satisfatria. Infelizmente  
pequer o nmero de pesquisadores cientficos, pois a maioria conser ainda muitos preconceitos para que 
possam colaborar nes importante obra. 
Todas estas manifestaes estranhas e maravilhosas que agrupam em torno da psicanlise  segundo os 
princpios p canalticos  fazem supor que ocorrer algo de muito sigr ficativo neste campo, trazendo ao pblico 
letrado (como ha} tuaimente) em primeiro lugar a defesa dos mais vivos afetos] 
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